Ageuniara

Há 40 anos um empregado espera pelo retorno do patrão

Por: CLAUDENIR RIGAMONTI

05/10/2007

O aposentado José Alves dos Santos, 66 anos, é casado com Maria Rita de Jesus, 59. O casal tem oito filhos e dois netos e, há 40 anos, espera pelo retorno de um suposto patrão, que lhe prometera que um dia acertaria as contas.

Santos reside em uma casa que pertencia à linha férrea Douradense que se localiza a 500 metros, aproximadamente, da rodovia SP 333, próxima de Borborema-SP. A casa ainda mantém as mesmas características da época: a pintura ainda é a mesma, as portas e janelas também, não há energia elétrica e nem água encanada. Ou seja, o casal vive numa situação precária há 40 anos e hoje a casa está cercada pela cana-de-açúcar.

O ex-ferroviário explica que quase nem vai à cidade, pois tem medo de que, ao sair, o proprietário da casa, seu antigo patrão, possa voltar e ele não esteja para poder acertar as contas. E assim, ele, sua esposa, uma filha e mais dois netos vão vivendo na mesma casa, certos de que algum dia essas supostas pessoas que José Alves diz serem as que os colocaram ali para morar possam voltar.

É com lágrimas nos olhos que José Alves conta essas histórias, ao lado de sua companheira. Nem sequer ao médico o casal vai. Para receberem atendimento médico e odontológico, os profissionais têm que se deslocar até lá, como fazem o médico edo dentista que os atendem. D

O médico Ricardo, responsável pelo PSF (Programa Saúde da Família) da Vila Hermes, bairro do município de Borborema, acompanhado de uma enfermeira e do responsável pela saúde bucal, dentista Daniel, visitam regularmente a família de José Alves dos Santos.

Quando soube do caso, o médico Ricardo quis logo conhecer o ex-ferroviário e ao chegar à casa ficou admirado com a situação de vida da família. Sempre que o médico, a enfermeira ou o dentista chegam, o casal fica muito feliz os tratam com muito carinho. Os profissionais lhes dão muita atenção, conversam e procuram ouvir o que José Alves tem para contar.

Segundo dona Maria, o casal passou a viver na casa assim que a ferrovia que por ali passava foi desativada. José Alves explica que as pessoas que os colocaram ali, de quem não recorda os nomes mas diz que ainda os espera, ficaram de voltar para acertar suas contas (refere-se a salários e direitos trabalhistas). Até hoje tem esperança de que venham para que possa lhes entregar a casa e também acertar pelo tempo que lá ficou.

Dona Maria, pessoa alegre e otimista, conta que até conseguiram uma casinha na cidade, mas que se depender do esposo, eles não saem da casa onde vivem há cerca de 40 anos. Até hoje a família toma banho de bacia utilizando a água retirada de um poço localizado aos fundos do quintal da casa. No inverno, conta Maria, é preciso esquentar a água no fogão a lenha para o banho.

Desativação faz 41 anos

A história da ferrovia na região começa ainda no século XIX. Em maio de 1894, foi entregue o ramal de Ribeirão Bonito pela Cia. Paulista, saindo da estação de São Carlos, no tronco, e com ponto terminal em Ribeirão Bonito, em bitola métrica.

Em 1900, a Cia. E. F. do Dourado (Douradense) abriu uma linha que unia Ribeirão Bonito a Dourado. Em 1910, o tronco da Douradense atingiu Ibitinga e sofreu modificações, aumentando-se a bitola e alterando a ligação Ribeirão Bonito-Trabiju, colocando a estação de Dourado como ponta de um curto ramal.

Somente em 1939 a Douradense prolongou a linha, chegando até Novo Horizonte. Em 1949, a Paulista adquiriu a Douradense, adicionando a sua linha-tronco ao ramal de Ribeirão Bonito, que ligaria São Carlos a Novo Horizonte diretamente. Em 1966, a linha entre Ibitinga e Novo Horizonte foi suprimida e em 3 de janeiro de 1969 todo o ramal de Ribeirão Bonito foi desativado. Os trilhos foram retirados pouco tempo depois.

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