Ageuniara

Etanol como matriz energética não é consenso entre especialistas

Por: TÁRCIO MINTO FABRÍCIO

09/10/2007

O processo de aumento na produção de etanol tem sido considerado um fator decisivo no desenvolvimento econômico do País. Entretanto, algumas questões relacionadas aos impactos sócio-ambientais da expansão da atividade são pouco abordadas, como a substituição de áreas naturais pela monocultura canavieira e a mudança no perfil da mão-de-obra, causada pela mecanização da colheita.

O aumento na demanda mundial por biocombustíveis, como nova matriz energética, tem ganhado destaque devido aos compromissos internacionais de redução nas emissões de carbono. Nesse cenário, o Brasil alcança um posto estratégico pela produção de etanol utilizando como matéria prima a cana-de- açúcar.

O diretor executivo da Ridesa, a Rede Interuniversitária para Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro, Marcos Sanches, professor do Centro de Ciências Agrárias da UFSCar, considera a expansão da indústria canavieira como uma oportunidade do País alcançar um maior desenvolvimento econômico.

Sanches afirma que os processos produtivos da indústria canavieira do Brasil são vistos como referência e reconhecidos internacionalmente. Ele acredita que o cultivo de cana-de-açúcar não causa necessariamente impactos ambientais e, ao contrário, pode até gerar efeitos positivos em relação ao meio ambiente.“A cana traz uma grande contribuição ao meio ambiente por ser uma cultura semi-perene que não deixa o solo exposto entre os plantios, e isso, aliado à baixa utilização de produtos químicos, contribuem para um efeito positivo no ambiente”, explica.

O Diretor do campus de Sorocaba da UFSCar, José Salatiel Pires, explica que o etanol é uma forma de energia limpa, não apresentando os mesmos impactos dos combustíveis fósseis. No entanto, ele ressalta que a produção em larga escala não é sustentável devido à ausência de políticas públicas adequadas. Pires afirma que o etanol só é competitivo por causa da grande quantidade de benefícios e subsídios governamentais.

No aspecto ambiental, ele argumenta que a cultura da cana-de-açúcar é baseada na grande utilização de energia e afirma que a aplicação de produtos químicos é sim muito intensa, ao contrario da visão de Sanches. “A agricultura que se faz com a cana hoje é baseada em uma trilogia entre monocultura, agrotóxicos e fertilizantes”, contesta Pires.

Além disso, ele afirma que a expansão das culturas canavieiras causa uma redução drástica nas áreas florestais e na quantidade de água disponível para a agricultura e para o consumo nas cidades. ”A questão de larga escala causa uma série de desequilíbrios retirando várias áreas florestadas que ainda existem no interior do Estado; em algumas regiões onde esse processo vem ocorrendo já são verificados córregos que não tem mais água”, comenta.

Cana x Alimentos

Outro questionamento constante sobre a expansão canavieira diz respeito à substituição de áreas destinadas à produção de gêneros alimentícios pelo cultivo da cana.

No entanto, Marcos Sanches explica que nas próprias áreas cultivadas com cana-de-açúcar são produzidos alimentos em sistema de rotação de culturas. Ele comenta que esse processo é conduzido anualmente em aproximadamente 20% da área canavieira e possibilita a aplicação e o oferecimento de uma melhor tecnologia aos pequenos produtores. “É possível produzir alimentos com maior eficiência. Eu acredito que o investimento em tecnologia na cultura da cana vá se refletir também na produção de alimentos principalmente beneficiando os pequenos produtores”, argumenta o professor.

Na visão de Pires, antes da expansão da cultura de cana-de-açúcar para as áreas anteriormente destinadas ao cultivo de gêneros alimentícios, deveriam ser realizados zoneamentos ecológicos e econômicos. ”Se você tiver um zoneamento ecológico você consegue definir onde devem ser produzidos os alimentos para que o custo do transporte não seja inviável. Para cada habitante de uma cidade são necessários 1,8 hectáres de área de plantio; então, avaliando dessa forma nem se plantaria muita cana”, esclarece.

Pires argumenta também que é preciso realizar um balanço da forma como os investimentos vão ser feitos no etanol. Ele acredita que é preciso, dentro dessa discussão, saber até que ponto o aumento na produção dos biocombustíveis pode ser interessante frente a outras matrizes energéticas limpas.

Ele também defende que na discussão sobre a expansão canavieira devem ser considerados os aspectos sociais, uma vez que o tipo de estrutura econômica atual do setor canavieiro vai continuar gerando concentração fundiária e renda para apenas uma minoria da sociedade.

Destaques:

Reportagens recentes:

Todas as reportagens

Reproduzir o conteúdo do site da Uniara é permitido, contanto que seja citada a fonte. Se você tiver problemas para visualizar ou encontrar informações, entre em contato conosco.
Uniara - Universidade de Araraquara / Rua Carlos Gomes, 1338, Centro / Araraquara-SP / CEP 14801-340 / 16 3301.7100 (Geral) / 0800 55 65 88 (Vestibular)
N /ageuniara/