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Trânsito irrita motoristas de Araraquara

Por: ALECIA QUINTINO PONTES

30/09/2004

Não há como negar. O trânsito é uma fonte de irritação para qualquer motorista, seja de cidade grande ou pequena. Quem dirige, pelo menos uma vez na vida já se irritou ao volante,ou ao guidão de uma moto ou bicicleta, a ponto de soltar um xingamento ou mesmo encarar um enfrentamento com outro motorista.

A correria da vida moderna, aliada ao apreço crescente dos motoristas por seus carros,muitas vezes a segunda casa de quem o usa como ferramenta de trabalho, parece estar agravando essas reações.

E o estresse no trânsito não tem poupado nem as mulheres, tradicionalmente mais cuidadosas. Um exemplo é a motorista de Araraquara(SP), Roberta,que preferiu um pseudônimo para não ser identificada, que já agrediu fisicamente outra motorista que desrespeitou uma sinalização, causando dano ao seu carro.

Heloísa Helena,também pseudônimo de uma auxiliar administrativa de Araraquara, diz que ficou perdida com o trânsito do interior, após ter vivido na capital.

Para estressados como elas, a psicóloga e professora Ana Cristina Alves Lima dá dicas simples para evitar que situações de tensão no trânsito não evoluam para episódios traumáticos.

A motorista Heloísa Helena (pseudônimo) se estressa no trânsito diariamente. Para ela, a falta de utilização dos sinais por parte dos condutores, como a seta, é suficiente para levá-la à loucura.

"Em São Paulo, apesar de haver muito mais veículos, as pessoas respeitam mais as leis de trânsito, são melhores motoristas", diz.

Os episódios diários que protagoniza vão desde xingamentos, cortadas e já chegaram às raias da violência. Um dos mais perigosos ocorreu em uma cidade do litoral paulista, no ano passado. Ela e amigos passeavam em três veículos pela cidade quando o seu carro foi cortado por outro.

Ela e os amigos, ao pararem no semáforo seguinte, resolveram “apavorar” os “intrusos”. Para surpresa e espanto de todos, na hora em que seu grupo cercou o veículo que a cortou, o motorista e seu acompanhante exibiram, cada um, uma metralhadora. “Saímos de fininho, como se nada tivesse acontecido. Eles riram muito”, lembra.

Outra história marcante ocorreu em Araraquara. Heloísa ficou nervosíssima quando uma motorista distraída, que não respeitou o sinal de "PARE", invadiu uma rua preferencial pela qual, naquele exato momento, ela conduzia seu veículo. Conclusão: mesmo estando certa, Heloísa desceu de seu carro e encheu a mulher de tapas. "Depois, fugi com o carro amassado, mas aliviada", relata.

Para ela, a falta de respeito no trânsito se deve à inexperiência ou ao aprendizado incorreto da condução de veículos.

Um processo, seguido de uma condenação por agressão com lesão, sentenciada de acordo com o capítulo XVIII (do processo administrativo), seção II (do julgamento das autuações e penalidades), no artigo 289 do Código Nacional de Trânsito, foi o saldo de uma confusão em que a motorista Roberta (nome fictício) se meteu no trânsito de Araraquara.

Para não cumprir pena de prisão de três meses e ter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) suspensa por três anos, ela desembolsou uma multa de R$ 500,00.

O caso ocorreu em um dia em que Roberta saía de uma vaga, segundo ela utilizando a seta como deveria, e uma outra motorista que vinha atrás impediu que seu veículo deixasse a vaga. Ainda por cima, o outro carro levou a lanterna e o pára-choques do veículo de Roberta na colisão que se seguiu.

Ao constatar que a outra motorista não pararia para conversar, Roberta iniciou uma perseguição alucinada para tomar satisfações. Quando o outro veículo entrou em uma rua sem saída, Roberta bloqueou a passagem, desceu de seu carro e bateu tão forte no rosto da outra motorista que enterrou olho adentro a lente de contato que ela usava.

Para Roberta, tudo o que ocorre de errado à sua frente no trânsito desencadeia irritação, que pode gerar desde uma buzinada a uma “bordoada”.

Sua desculpa é que não se conforma com a falta de respeito à sinalização. “Freqüentemente ‘crio caso’ no trânsito. Isso me incomoda, porque acabo estragando o resto de meu dia”, desabafa.

Ela diz que, se não fosse os compromissos com hora marcada da sua profissão, de assistente administrativa, andaria a pé para garantir uma melhor qualidade de vida.

O jornalista, radialista e diretor de uma rádio araraquarense Wagner Luiz é uma exceção e uma antítese ao comportamento normalmente impaciente dos motoristas. Não há quem consiga liberar sua ira no trânsito.

“Passo pelas mesmas dificuldades de Roberta e Heloísa, mas estressar não resolve problema algum”, afirma. O segredo dele está em antecipar os acontecimentos e em se questionar sobre o que vai colher se tiver uma atitude de intempestiva no corre-corre do trânsito de qualquer cidade.

Ele explica que a antecipação se dá por meio de uma observação atenta dos movimentos dos veículos. Ele já presenciou um episódio no qual um veículo chocou-se com outro violentamente em um cruzamento e não gostou da experiência.

Segundo Luiz, sua profissão o coloca em um canal aberto para comentar e chamar a atenção dos motoristas para as irregularidades presenciadas por ele no trânsito. Sem contar que o estúdio de onde é transmitido o seu programa diário fica de frente para uma avenida de grande movimento.

Para o radialista, se todos partissem do princípio de que errar é humano, talvez a falta de respeito para com o próximo seria minimizada no trânsito, evitando cenas violentas fáceis de se presenciar no dia-a-dia de qualquer cidade.

O estresse está intimamente ligado à rotina, a horários, compromissos, decisões a serem tomadas, ou seja, momentos de tensão.

Para a psicóloga e professora em uma universidade de Araraquara (SP) Ana Cristina Alves Lima, para evitar situações de tensão decorrentes dele, às vezes o ideal é olhar determinadas situações, como uma cortada no trânsito,por exemplo, com outros olhos ou respirar fundo e contar até dez, para evitar mais aborrecimentos.

Ela explica que o estresse é um desgaste de componentes físicos, mentais e hormonais desencadeado no organismo quando surge necessidade de adaptação a uma situação de importância, como por exemplo, as que ocorrem no trânsito.

"A rotina do vai-e-vem em avenidas e ruas, por si só, já é estressante, pois pede atenção e cuidados constantes, levando os motoristas a dirigir por eles e pelos outros. Antecipar os acontecimentos do dia seguinte, inserindo os compromissos em uma agenda, pode ser uma alternativa para quem busca menos atropelos durante um percurso, ou sair mais cedo, evitando um atraso ou uma correria desnecessária", observa.

As pessoas agitadas, que buscam, mesmo em momentos de descanso, algo para fazer e não param, estão pré-dispostas a desencadear estresse, inclusive no trânsito.

“Para aliviar as cargas de estresse, as pessoas devem procurar momentos de relaxamento, seja por meio da prática de exercícios físicos, da alimentação saudável ou até mesmo da leitura de um livro. O equilíbrio emocional também pode ser alavancado com atitudes e pensamentos positivos perante a vida", orienta.



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