Ageuniara

O debate político precisa se qualificar, diz cientista político

Por: KALINKA BACACICCI

05/05/2016

A palestra do professor Milton Lahuerta, cientista social e professor na UNESP, foi a atividade do Ciclo de Estudos de Jornalismo da UNIARA, da quarta-feira, 4/5. Convidado pela professora Inayá Bittencourt e Silva, também com a presença do prof. Edmundo Alves de Oliveira, representando a Reitoria da Uniara, o evento marcou com êxito a terceira noite do Ciclo, que vem debatendo questões em torno do tema "Jornalismo, Política e Direito: no centro da crise". A palestra reuniu estudantes de Jornalismo, Direito e Ciências Sociais, além de pessoas da comunidade, a exemplo do presidente da Câmara de Vereadores de Araraquara, Elias Chedieki, no auditório "José Quirino dos Santos", localizado na unidade 1 da UNIARA.

Milton Lahuerta iniciou a palestra tratando de três pontos principais: o processo politico brasileiro e sua crise de representação, que gera saturação do povo em respeito à politica; a ideia de crise democrática; e, por fim, a crise da ideia politica. Diz que as pessoas devem se informar e se formar em politica para então poderem viver em sociedade. Relembrou passagens históricas de revoluções e transformações desde os filósofos Sócrates e Platão, às revoluções Francesa e Russa para explicar mudanças que já ocorreram.

O Brasil está vivendo um intenso processo de transformações e mudanças para algo novo, e isto é um processo que leva tempo, pois se trata de uma transformação de época. Tratou da sociedade atual que está pautada pela aceleração de tudo, principalmente o fluxo de informações, que podem ser mal apuradas. Além disso, a moda está sendo o excesso de tudo. Estes pontos podem gerar, segundo Lahuerta, graves problemas sociais. O palestrante abordou também a ideia de individualismo que vem crescendo entre as gerações, todos sem limites, podendo sempre mudar seu destino, porem isto vem gerando a falta de dialogo, e aceitação de ideias diferentes e os debates para um consenso de opiniões.

Após esta explicação fez uma citação de Mário de Andrade em relação ao pensador Alceu Amoroso Lima e a adaptou, dizendo que agora a sociedade está em meio a uma enchente, as transformações estão indo além dos limites e não podemos ser cegos tentando conter o poder das águas com as mãos.

Por fim, Lahuerta tratou da politica, considerando a perda do radicalismo dos partidos para uma profissionalização da atividade politica, tratou da corrupção na política e questionou a tentativa de solucionar problemas atuais adotando antigas visões; e fechou sua explanação mostrando como a economia vem infetando e dificultando as soluções para a crise atual, que produz "instituições zumbis", ou seja, que existem mas não funcionam, exemplificando com os partidos políticos. 

O PAPEL DOS JOVENS NA POLÍTICA

Solícito e disposto a dialogar com todos, o cientista político concedeu entrevistas a diversos alunos do curso de Jornalismo, inclusive  à Ageuniara. Confira:

Ageuniara: Como professor de politica, seu contato com os alunos mostra que, atualmente, os jovens estão demonstrando mais interesse no conhecimento da politica, ainda mais com a crise que o Brasil vive atualmente?

Milton Lahuerta: Eu diria que momentaneamente, em virtude da crise, o interesse pela politica cresceu. Estruturalmente, historicamente, o interesse pela politica tem diminuído. As pessoas andam muito mais preocupadas com se divertir, com o consumo, com o sucesso, do que propriamente com a reflexão acerca dos problemas comuns. Eu penso que nesse momento, que vivemos agora, houve um retorno da politica. Que seja uma boa oportunidade para aproveitarmos e recolocarmos este tema em debate e procurarmos estimular a juventude a pensar mais sobre as questões politicas, até pela importância que elas têm. 

Ageuniara: Com um olhar social, qual sua opinião sobre a mobilização do povo brasileiro em ir pras ruas para debater sobre a politica e a corrupção?

Milton Lahuerta: Eu acho que tem muita confusão nesta mobilização. Na realidade, as pessoas estão sendo induzidas a saírem às ruas em uma excessiva dramatização da questão da corrupção; isso pode ser bom desde que esse empenho todo, essa energia toda, seja canalizada para algo mais duradouro. Onde se possa efetivamente estar pondo em discussão, refletindo acerca dos grandes problemas, da complexidade de uma sociedade como a brasileira, e, acima de tudo, desenvolvendo um processo através da participação de educação politica.

Ageuniara: Sobre o povo ser induzido, a mídia tem um papel forte nisso?

Milton Lahuerta: Claro que a mídia tem um papel forte nisso, não há duvida alguma. A maneira como as informações circulam, tanto na mídia tradicional quanto nas novas mídias, especialmente nas redes sociais, que estimulam muitas vezes uma compreensão fácil sobre os problemas, a partir da qual se estrutura uma visão de mundo que pensa as coisas numa logica que, de um lado, estão os amigos e, do outro lado, estão os inimigos.

Ageuniara – Professor, a polarização PT-PSDB no cenário político contribui para o acirramento de uma luta de classes nas ruas do país?

Prof. Lahuerta: Não contribui para o acirramento, para a luta de classes.Contribui para o modo como essa polarização se estruturou para essa intolerância, para a perda exatamente de clareza com relação a quais são os problemas reais que nós precisamos enfrentar. Essa não é uma polarização que contribui para educar a cidadania. Ela contribuiu para cristalizar posições fechadas, que se tornam incapazes de interagir, e com isso se efetiva uma espécie de bloqueio na própria renovação do sistema político, o que é muito negativo.

Ageuniara - Em sua opinião, o Brasil passa por uma necessidade de mudança no que diz respeito ao sistema de governo?

Prof. Lahuerta: Seguramente, sim.Por que eu digo isso? O experimentalismo político institucional é sempre muito importante, agora ele não pode ser pensado de forma abrupta e nem muito menos como a solução de todos os problemas. Esse é um tema chave. Discute-se pouco a questão do sistema político brasileiro e as possibilidades de transformações institucionais. Nós precisamos aprofundar esse debate. Aprofundar no mundo acadêmico, aprofundar entre a classe política, aprofundar entre os setores de mídia, para saber exatamente o que se quer com uma mudança de sistema político. O que está claro para mim? O presidencialismo, nos moldes como ele funciona no Brasil, chamado de presidencialismo de coalizão, chegou ao seu limite. Nós vamos ter que rever isso. O próprio mecanismo do impeachment está sendo mal utilizado agora, e por essa razão. Porque na realidade nós devíamos estar pensando num mecanismo que pudesse efetivar a mudança do governo sem tanto trauma. O impeachment é um processo traumático, porque ele precisa atribuir crime de responsabilidade para poder ser efetivado; e na realidade o que nós temos, acima de tudo, é um governo frágil, débil, que não consegue se realizar enquanto governo. Então, nós precisaríamos pensar isso de alguma maneira, até para que as coisas não fossem tão traumáticas para o futuro.

PROGRAMA DO CICLO

O Ciclo de Jornalismo da Uniara já contou com a participação da jornalista Carla Gimenez, editora executiva do jornal "El País" no Brasil, na segunda-feira(02/05), além de Cynara Menezes, autora e editora do blog "Socialista Morena", na terça-feira (3/5). Ontem, (4/5), recebeu o cientista político Milton Lahuerta. Nesta quinta-feira (5/5), recebe o Professor Doutor José Querino Tavares Neto, da Universidade Federal de Goiás, e o Promotor de Justiça Raul de Melo Franco Júnior, membro do Ministério Público de São Paulo e professor do curso de Direito da Uniara. O encerramento amanhã, sexta-feira (6/5), contará com a presença de Edinho Silva, Ministro-Chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

As palestras são abertas a todos os interessados e são realizadas no auditório principal da Uniana, na unidade central.

(Colaborou o aluno repórter José João Jordão Junior)

(Publicada em 5/5/16 - 16h10) 



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