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Ser, Ciência e Religião, um assunto e diversos lados

Por: LETICIA DE OLIVEIRA DOS SANTOS

24/09/2014

Através dos séculos, a relação entre religião, fé e ciência, é dividida por uma linha tênue de contradições e estranhamentos, e que divide opiniões na sociedade. O modo como a ciência encara e tenta explicar a fé e todo um leque de assuntos relacionados a ela, é complexo. Enquanto a religião tenta explicar o mundo através de ideias e conceitos de certa maneira abstratos, a ciência busca o mostrar o concreto e a razão.

Segundo Juliene de Cassia Leiva, psicóloga, com Mestrado em Educação Especial, de Araraquara (SP), a complexidade em relacionar fé e razão, ou fé e ciência, se deve ao fato do ser humano ser complexo, e a compreensão sobre os fenômenos que o envolvem também exige a consideração de diferentes aspectos relacionados, de forma bastante complexa.

 Para ela, essa divisão que aprendemos a fazer, entre a dimensão da espiritualidade e da razão, é uma tentativa de simplificar a compreensão sobre a experiência humana. “Na verdade, ambas estão presentes em nossa história, sem necessariamente colocarem-se de forma tão fragmentada. A questão é que a ciência tradicional, cartesiana, baseia-se na separação entre corpo e alma e induz à noção de que a subjetividade, associada à alma, seria incompatível com a objetividade do aparato físico”, explica.

Segundo a psicóloga, é importante esclarecer que religião não é o mesmo que fé ou espiritualidade, uma vez que essas são dimensões que podem estar presentes na experiência humana, mesmo fora do contexto de uma religião. Segundo ela, a crença em realidades sobrenaturais em situações de perda e sofrimento oferece conforto, o que muitas vezes leva à busca por uma religião.

Com relação a fenômenos sobrenaturais relacionados com a espiritualidade, como milagres, aparições, previsões e pessoas que afirmam ter dons mediúnicos, Juliene explica que a Psicologia considera tais fenômenos como assuntos complexos a serem estudados. “ Nossos métodos de pesquisa ainda são insuficientes para registrar e compreender o significado desses fenômenos, que recebem variadas explicações sobrenaturais, justamente por não terem sido ainda explorados de forma cuidadosa”, conclui.

Já segundo a cientista social,  Viviani Marchi, 23 anos, de São Carlos (SP), apesar de todo o histórico de contradições, tanto a ciência quanto a religião tratam dos mesmos assuntos, porém, em perspectivas diferentes e uma não desqualifica a outra, apesar de seguirem em caminhos contrários: “A ciência crê no que é cientificamente comprovado, diferente da religião que crê no criacionismo”, relata. Ainda, de acordo com ela, as discussões envolvendo ciência e fé na sociedade, muitas vezes, ocorrem por que apesar de o Brasil ser um país laico, a população é altamente religiosa, o que faz com que haja questionamentos com relação aos assuntos estudados pela ciência.

A socióloga explica, que a busca pela fé e religião, ocorre pelo fato dos indivíduos buscarem respostas para entenderem o mundo, e também pelo vazio , muitas vezes, presente na sociedade moderna. Questionamentos ligados a vida, por exemplo, podem ser esclarecidos por uma religião, já que cada doutrina tem uma maneira própria para  explicar fatos como o mito da criação, e uma forma de ver e compreender o mundo, preenchendo o vazio dos questionamentos  com a crença, a fé.

Viviani acrescenta que a fé pode trazer benefícios na vida social e pessoal de um indivíduo, como estímulo emocional e motivacional para melhorias da condição que este se encontra na sociedade. Em contrapartida, segundo ela, a religião também pode influenciar negativamente quando um indivíduo passa  a querer impor sua religião aos outros, ou quando o pensamento passa a ser extremista, julgando a liberdade de pensamento, escolhas e crenças do outro, como o caso amplamente conhecido dos homens bombas no Oriente Médio.

A profissional conta, que a religião é saudável quando não invade a privacidade e a liberdade de escolha do outro mas, muitas vezes, as pessoas já nascem dentro de uma determinada religião e grupo social, o que faz com que vejam com estranheza, ignorem e, em casos extremos, hostilizem demais grupos e religiões, o que muitas vezes prejudica o convívio em sociedade.

O outro lado da história

Segundo o padre Gilmar Siqueira, da paróquia São Judas Tadeu,  de Araraquara (SP), há dezoito anos no sacerdócio, a fé, em suma, é acreditar e confiar em algo que para si é concreto ainda que não possa ser visto. Para ele, a fé também está em observar o mundo à volta, e crer que pode ver nele um criador, Deus.

O sacerdote relata que através da fé, muitas pessoas podem modificar suas formas de pensamento e de visão de mundo. “As pessoas são curadas no seu interior e  exterior, há os que renunciam às drogas, as pessoas que se relacionam melhor no casamento, e os que são curados da depressão, porque religião e fé dão equilíbrio, paz  e tranquilidade.”

Gilmar Siqueira, afirma que a religião também ensina a questionar, pois mostra uma visão de mundo divergente da que conhecemos, e que muitas vezes se fundamenta na diminuição do ser humano. Com relação ao modo de lidar da Igreja com assuntos envolvendo a temática de milagres, o padre afirma que a instituição, é extremamente cautelosa com relação ao assunto. Segundo ele, há exageros por parte de alguns e, muitas vezes, uma fragilidade psicológica, pode levar a uma autossugestão, ou uma melhora momentânea que em certa ocasião pode ser erroneamente classificada como milagre.

De visão moderna com relação à ciência, o sacerdote da Igreja Católica, afirma que ela e a fé devem caminhar juntas, pois a ciência contribuiu, contribui, e sempre contribuirá com a fé, em suas explicações e descobertas.

(Publicado em 25/9/2014 - 13h03).



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