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Comunicados Oficiais - UNIARA (COVID-19)

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Agronegócio: nosso pão de cada dia

Por: ABNER AMIEL CARMO DOS SANTOS

18/10/2013

Era verão de março. Foi quando uma mulher de pele clara e cabelos castanhos, de meia altura, enveredou pela sala 4, 2º andar da Uniara. Valéria Ribeiro ficou posicionada na frente de todos os futuros jornalistas - do segundo ano até quarto - e, sem balbuciar, abriu a boca e começou a falar: “Quero convidá-los a participarem do Prêmio ABAG RP Jornalismo”, expressou enfaticamente. Ela explicou que o prêmio foi criado em 2008 com o objetivo de incentivar e reconhecer o trabalho jornalístico dedicado à divulgação de assuntos relacionados ao agronegócio regional e nacional. “Os alunos vão participar de um ciclo de palestras e visitas”, explicou naquela ocasião.

No momento eu tinha dado pouca importância. Pensei como os norte-americanos quando não se importam com algo "I don’t mind" ( eu não me importo). Pois, agronegócio não é minha praia, não faz parte da minha vida, não traz nada para meu benefício, disse eu com meus conflitos internos. Não estava em minha agenda dos sonhos viajar por um mundo cujo cerne era o agrobusiness.

Assim como o orvalho da noite cai em uma simples planta e escorrega rapidamente no chão, assim também foram os dias. Chegou a data da inscrição do Prêmio e meus conterrâneos estavam exaltados por causa da viagem. Convenceram-me. “Eu vou”, eu disse, sem saber o que ia encontrar e descobrir nessa viagem. Pois estava cansado do trivial.

O poeta Fernando de Andrade disse uma vez: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia”. Esse era o meu tempo, eu pensei, o de travessia, de conhecer coisas hodiernas.

Chegou o dia, era de manhã, primeiro de maio, o sol estava estupendo, saindo de trás das densas nuvens, igual um coelho saindo da toca. “Em todas as coisas da natureza existe algo de maravilhoso”, disse uma vez o filósofo Aristóteles e, naquele dia, esse algo era o sol.

Alguns momentos depois a van abeirou. Era a nossa condução para a nova jornada. Na rodovia Antônio Machado de Santana, um conglomerado de carros moviam sinergicamente somente de um lado da pista- o direito, e para uma direção, a nordeste. Era como se eles estivessem sendo atraídos para um único lugar, para um só objetivo. “Vou dormir e descansar um pouco”, disse Ileoni Jesus, que estava com seu ray ban retangular de viagem.

Depois de algumas horas de quietude, alguém exclamou: “Chegamos! É Ribeirão Preto”. Era uma cidade bela com seu clima tropical. Uma vegetação original com fragmentos, tais como da floresta estacional semidecidual - vegetação pertencente ao bioma Mata Atlântica. Podíamos ver longos edifícios retangulares um atrás do outro, como o jogo do dominó. “Sim, a cidade é linda”, respondi no meu intelecto.

“Chegamos! Essa é a Agrishow ((Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação) e é considera a segunda maior feira do mundo”, disse uma voz na minha vanguarda. Alguns escorregaram para a janela da Van, pareciam o furão - animal conhecido por ser curioso. Do lado direito as ervas daninhas nos davam boas vindas, do outro lado havia filas, com uma pluralidade de pessoas, principalmente trajadas de “cowboys”. Este seria o modo de defini-los, pois estavam à moda country: botas de couro, calças apertadas, fivela, camiseta listrada e um belo chapéu. Se a cantora Ivete Sangalo estivesse ali, ela cantaria:

É festa do agro pode vir pode chegar,

Misturando o mundo inteiro Vamo vê no que é que dá...

Tem gente de toda cor

Tem raça de toda fé....

Era uma “festa”, todos sorriam, brincavam e as crianças que estavam acompanhadas de seus pais não se aquietavam. Aproveitamos o momento para tirar sessões de fotos para guardar de recordação. Um flash aqui, outro acolá, e todos sorriam.

Pegamos um ônibus que nos levou por uma porção de terra até a entrada da Feira. Com os ingressos que a ABAG nos forneceu, entramos na Agrishow. Aquilo não era uma feira, era uma cidade. Parecia um formigueiro, só que com pessoas. Existiam várias ruas, diversos quarteirões, lotadas de estandes e de indivíduos.

Conforme andávamos, recebíamos panfletos, revistas e outros informativos da Feira e das empresas ali alocadas, e íamos enfiando na bolsa para ler mais tarde, no retorno da viagem.

“Cuidado meninos, andem um perto do outro” soou uma voz da frente. Pois estávamos dispersos olhando e parando em qualquer estande que víamos. Parecíamos crianças indo a primeira vez a um parque de diversão, querendo ver tudo sem perder nada de vista.

Teve um belo café da manhã e alguns minutos depois, conhecemos colegas de outras universidades. A secretária da agricultura, Mônika Bergamaschi, palestrou para os alunos e apresentou sua equipe de trabalho.

Então chegou a hora de conhecer os estandes das empresas que estavam com seus insumos agrícolas. Continuamos andando separados e não deu outra: nós estávamos perdidos de toda a turma. Havia sobrado eu, o Ileoni Jesus - colega de sala - e uma moça da Barão de Mauá, que não lembro o nome.

Olhávamos para todos os lados procurando pelo bando de camisetas amarelas - era a camiseta da ABAG que todos estavam vestindo -, porém, não achamos ninguém. Estávamos sozinhos graças a nossa distração e curiosidade de parar em qualquer lugar. Estamos perdidos, uivava meu íntimo, como lobo.

Naquele momento acredito que minhas glândulas supra-renais produziram adrenalina como nunca. Meu sangue fervia, pois estávamos perdidos, num mato sem cachorros - expressão das antigas caçadas a raposas na Inglaterra. Podia ser inserida o que disse Vinicius de Morais certa vez: “No mar estou perdido...”, entretanto, meu mar era gente, pessoas por todos os lados, e desconhecidas.

Avistei um senhor que estava dentro de um canteiro de milho. Ele estava dando orientações para um casal e parecia muito sábio no que dizia. Aproveitei que o par havia se retirado e fui conversar com aquele senhor encurvado com os joelhos no chão e amaciando a areia perto da planta.

Apresentei-me e falei que era aluno de jornalismo que estava visitando a Feira pela primeira vez e perguntei se ele tinha visto pessoas com camisetas amarelas iguais com os mesmo dizeres - ABAG Jornalismo. Ele olhou para mim, e notei que ele parecia o Liev Tolstói - escritor russo que pregava uma vida simples e em proximidade à natureza e tinha uma característica de ser recatado.

“Não os vi, meu jovem”, respondeu coçando o bigode.

Percebi que ele era agricultor e como eu o tinha ouvido orientando um casal aproveitei para perguntar sobre o agronegócio. Sempre ouvi falar que a agricultura é a mola propulsora do Brasil ou a força motriz. “Senhor, o agronegócio é isso que falam, é o que move o nosso país?”, interroguei.

- O agronegócio é mais que isso, é o nosso pão de cada dia, respondeu com firmeza, sem medo de ter errado alguma palavra.

- Está vendo esse milho que estou tocando?, perguntou-me.

- Sim, vejo.

- O curau, a pamonha, o bolo de fubá e a pipoca derivam dele.

- Sim, mas...

Não esperou eu terminar e já emendou outra pergunta:

- Sabe os pães, macarrão e os bolos que você come?

– Sei.

- Vem do trigo. O açúcar é derivado da cana, que também é usada para fazer etanol e o arroz que está em nossas mesas todos os dias, também vem da agricultura.

Ele não parou. Continuou despencando um monte de informação em mim. Até parecia que eu o tinha tirado do sério e que ele estava tentado provar algo.

- Sabe o queijo que você come no café da manhã?, vem do leite. Nós vestimos todos os dias roupas que são provindas do algodão. Tudo é agronegócio.

Ele parou e ficou me fitando, esperando um indagar. Parecia como os povos gauleses esperando o ataque de uma legião romana. Eu estava certo que se questionasse, ele iria atacar, ele já tinha as respostas.

- E é nesse ramo que trabalho. Acordo todos os dias e vou para o campo, explicou ele.

Eu sabia que ele estava certo, entretanto não queria dar o braço a torcer e não gosto de ser convencido tão facilmente.

Era verdade o que o agricultor disse. O agronegócio está nos alimentos, na nossa roupa, nos lugares que frequentamos, no nosso dia a dia.

O meu orgulho caiu como neve. Eu pensava que sabia de tudo e minha jactância me consumia. Pensei como Sócrates: “Só sei que nada sei”.

Percebi o quanto era ignorante no assunto que é de principal importância no país. Eu sabia que o arroz, a cana, o algodão, o milho eram plantados, mas não sabia que a atividade destes cultivos estava dentro do agronegócio.

Pegando um livro para ler descobri que, há 10 mil anos, um dos nossos ancestrais percebeu que um grãozinho caído no chão brotava e dava origem a novas plantas. Eles aprenderam a plantar e a colher e nós aprendemos a cultivar com estas pequenas histórias. Este agricultor aprendeu com a história.

Olhando para o agricultor percebi que o meu pensamento sobre o agronegócio era estava totalmente equivocado, estava cometendo um “sacrilégio”. Pois, por trás de toda esta atividade de plantação e criação de animais, existiam trabalhadores como este modesto homem de barba branca na minha frente.

Conversamos mais um pouco e me despedi dele, sem saber seu nome. Havia aprendido muito naquele dia e com um homem simples, do campo. Como diz meu pai: “Nós que crescemos no campo não temos tato para essas invenções tecnológicas de hoje, mas sabemos muitas coisas que vocês (jovens de agora) não sabem”.

Encontrei-me com os dois estudantes que estavam comigo. Eles tinham conseguido o telefone da Valéria e foi então que ligamos e ela nos reorientou para o lugar em que eles estavam.

Hoje, um pouco mais informado sobre este segmento, depois de várias palestras, posso dizer com o agricultor: “Agronegócio, nosso pão de cada dia”.

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