Ageuniara

Cultura sertaneja dificulta a vida de bandas de rock na região

Por: RODOLFO FERNANDES DA SILVA

01/04/2011

Falta de lugar pra tocar, discriminação, cachê baixo ou inexistente, e até contratantes inescrupulosos. Tudo isso faz parte da lista de problemas que as bandas de rock da região enfrentam em seu dia a dia.

Boa parte do problema é creditado à forte cultura sertaneja predominante na região, que não costuma abrir espaço para outros estilos.

O produtor musical, professor de canto e vocalista da banda Nera, Rafael Tanisho, conta como que "as pessoas aqui não tem o costume de sintonizar numa rádio e ouvir rock. É sempre sertanejo. Pra tocar está cada vez mais difícil. Não por capacidade, mas por falta de espaço. Rock está cada vez com menos espaço, infelizmente”, lamenta o músico.

Músicos como Abraão Rosa, mais conhecido como Lincoln, que até já venceu um concurso musical concorrendo com outros estilos, sente o problema na pele. "Uma vez fomos contratados pra tocar em um lugar de Nova Europa. O dono sabia de nosso estilo e preparamos um repertório totalmente de rock, com mais de cem músicas. Mas ele percebeu que se anunciasse que era rock, ninguém ia. Aqui acham que é bagunça, sexo, drogas e bebida; e o povo de família não vai. Então na propaganda de rua colocou que íamos tocar sucessos sertanejos. A casa lotou e só ficamos sabendo disso na hora. Tocamos das 22h até as duas horas da manhã no improviso. Nem sabíamos direito as letras, a gente puxava e jogava pro povo cantar. Nunca o tempo demorou tanto pra passar em um palco como naquele dia".

Vitor Hugo Biasotto, que por falta de lugar já aceitou até tocar de graça, no sereno e em pleno inverno, resume bem a situação: “Em Tabatinga, se você não toca sertanejo, você não é nada. Pra conseguir espaço tive de aprender o estilo. Ensaiávamos e queríamos tocar rock, mas na hora de se apresentar, era modão que a gente tocava”.

Continuidade

Conseguir manter uma banda parece tarefa cada vez mais difícil. Nossos entrevistados já passaram por várias.

Fora free lancer, projetos e participações especiais, Tanisho está na quarta banda, Biasotto na segunda e Lincoln após ter passado por três, toca atualmente sozinho.

Segundo Lincoln, se estivessem em uma cidade maior, que absorvesse outros estilos, as bandas não teriam acabado. “Não ficaríamos só dentro da garagem ensaiando. Teria mais oportunidades, outros meios de divulgação. A última banda que participei, a MegaDroid, era de Borborema. Eu viajava para lá todo final de semana pra ensaiar (ele é de Tabatinga). Fazia isso pelo fato de não ter encontrado aqui alguém que estivesse disposto a tocar rock. Mas quando tivemos de começar a tocar sertanejo, saí da banda. Perdeu sentido o meu esforço"

Na outra banda de Lincoln atuavam quatro músicos. Dos demais integrantes, um está parado e os outros dois acabaram entrando em um grupo sertanejo local. "É isso o que sempre acaba acontecendo”, lamenta.

Para Tanisho, isso é meio traumático. “Cada banda que acaba, a cada troca de integrante, dá vontade de desistir. Mas música é minha vida. Eu sei que mesmo se eu não estiver com bandas, vou querer continuar pelo menos produzindo. Então nunca vou parar”.

Preconceito

O preconceito se tornou algo comum a esses músicos. Tanisho já se acostumou a ver senhoras atravessando a rua para evitá-lo. “Eu era daqueles que andavam de cabelo solto (ele possui cabelo comprido), não importa o sol. Calça preta, camiseta preta e bandana. Daí é aquele pensamento que muita gente tem. Já vieram me falar coisas como 'nossa, antes de te conhecer, achava que era mó cuzão...”(sic).

Lincoln já teve até seu equipamento revistado atrás de drogas. “A gente ia tocar em um lugar que eles olhavam nossas coisas, principalmente as bolsas de cabo, procurando droga. Ás vezes você fica na doideira do som e eles acham que é por causa de alguma substância, não o poder da música. Acreditam que você não é muito certo”.

Para Biasotto, que tem apenas 17 anos, o problema é um pouco diferente. “Eu sempre fui do rock, mas quando saiu essa do emo, o pessoal confundia. Meu, que raiva. Os caras ficavam chamando a gente de emo, de viado.” (sic)

Brigas

A rivalidade entre as bandas é algo que preocupa os músicos, mas faz parte do dia a dia. "Rivalidade é o que mais tem. Podem dizer que não, mas existe. É uma banda querendo apunhalar a outra pelas costas. Você vai abrir shows e não pode usar sua regulagem no microfone ou instrumentos. Além de quase sair no soco várias vezes", afirma Tanisho.

Lincoln complementa: “Numa cidade pequena, as próprias bandas de rock tentam estragar umas às outras. Eles fazem terrorismo entre si, ao invés de se juntar para fortalecer o estilo".

E histórias não faltam para essa galera. A banda de Biasotto foi contratada para tocar em um aniversário. O combinado era tocar 25 músicas e depois deixar um computador tocando para continuar animando a festa.

No meio da apresentação, um grupo que não gostava deles ligou o computador e deixou tocando junto, em volume altíssimo. Pra evitar uma briga, tiveram de interromper o show e ir embora.

A hora de receber o pagamento, ás vezes reserva surpresas. “Tem muito contratante que simplesmente não paga. Teve também uma vez que fomos tocar e a baixista estava encarregada de receber o cachê. Ela não pegou o cachê. Pegou o dinheiro dos ingressos que havia vendido e pagou bebida para os amigos dela. E no fim da noite, ainda vomitou no carro de um amigo nosso”, conta Tanisho.

O bom e velho Rock and Roll

Quando são perguntados sobre o rock na atualidade, a resposta é unânime: o verdadeiro rock está bem vivo, somente não está tão destacado, como antigamente.

Citam como exemplo de boa música a banda Foo Fighters, e até mesmo Nickelback, que na mídia costuma lançar baladinhas mas apresenta um som forte e pesado nos CDs.

Para Biasotto, “o rock não morreu e sim sofreu mudanças. Ainda há muita coisa boa nos dias atuais.

Antigamente, as músicas ficavam muito tempo nas paradas de sucesso. Hoje em dia é muito rápido e elas somem depressa. Você tem de garimpar para encontrá-las”.

Segundo Tanisho, “a música boa existe, somente não está na mídia. Tem muita coisa lado B nas bandas que é fantástico. Eles só mostram o lado meloso, que é pra vender mais. As pessoas gostam de coisas piegas. As produtoras, gravadoras e emissoras sabem disso. O negócio é esse: explorar o sentimento das pessoas pra vender música”.

E mesmo com todas as dificuldades que enfrentam, há momentos gratificantes que dão força para seguir em frente. É o que revela Tanisho:

“Na primeira vez que toquei num lugar massa, estava com uma banda de hard rock. Por incrível que pareça, o pessoal acabou curtindo mais nós, moleques, que fazíamos um som mais maduro. Do que os mais 'adultos', que faziam um som de moleque.

Às vezes você faz um show que tá recebendo bem e ninguém tá cantando. Então fica de boa porque tá se divertindo, tocando e ganhando pra isso. Mas as vezes você não recebe, mas a galera tá animada, cantando todas as músicas. Isso mostra que o esforço vale a pena. É recompensador”.

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