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Violência nos estádios ainda preocupa

Por: VITOR HUGO FRANCESCHINI DE CARVALHO

16/03/2010

A violência nos estádios está se tornando cada vez mais comum. As brigas freqüentes entre torcedores de facções organizadas não são apenas protagonizadas dentro dos estádios, pelo contrário, a maioria delas acontecem ao redor do local onde está situado o campo de futebol.

Após a reforma da Arena da Fonte, em Araraquara(SP), sempre foi cogitado que os grandes clássicos paulistas seriam realizados no estádio da cidade, o que pode trazer espetáculo para a população, mas ao mesmo tempo o temor da violência entre torcidas.

Esse tipo de violência se tornou freqüente a partir da década de 80 com o surgimento maciço de torcidas organizadas, que além de torcerem por seus clubes passaram a rivalizar intensamente com outros grupos de torcedores rivais, chegando ao ponto de trocas de agressões. Na década de 90 a violência só aumentou e até os belos bandeirões com mastros de bambu ou PVC foram banidos dos estádios paulistas. As punições continuam sendo pequenas tendo apenas diminuído este tipo de violência dentro dos estádios e, consequentemente, aumentado fora das arquibancadas.

Mas o que leva uma pessoa a cometer atos de violência em prol do fanatismo por um clube de futebol? Segundo a psicóloga Karina Peronti,de São Carlos(SP), “fanatismo é produto de vários fatores cada vez mais crescente em nossa sociedade atual, bem como a violência advinda dele em alguns casos.

"O fanatismo é uma forma de substituição de modelos de referência nos quais podemos nos apoiar para fazermos escolhas e nos definirmos ao longo da vida, especialmente em seus momentos críticos”. O fato da maioria dos atos de violência envolverem jovens é explicado da seguinte forma pela psicóloga: “A entrada nestes movimentos tendem a acontecer em fases de passagem, como na adolescência, e costuma ser predominante em pessoas com traços de uma personalidade frágil ou instável”.

Já a socióloga Gracielli Prata, de Descalvado(SP), vê diferentes formas que levam as pessoas ao fanatismo e posteriormente a cometer atos de violência em prol deste fanatismo.“As razões que levam o indivíduo ao fanatismo podem ser diversas, como amor incondicional pelo time, a vontade de expressar esse sentimento e também a necessidade que se tem de mostrar a superioridade do seu clube do coração perante o clube rival. Tudo isso seria muito comum e saudável se não fossem os atos de violência cometidos por esses torcedores fanáticos”.

Muito se fala e está sempre se condenando as torcidas organizadas, mas sabe-se que essas mesmas torcidas têm intensa participação em ações sociais e culturais, tais como campanha do agasalho, doações de brinquedos à entidades carentes, eventos beneficentes, blocos carnavalescos e escolas de samba, enfim vários eventos que mobilizam seus integrantes.

Mas, essas mesmas torcidas, na maioria dos casos, protagonizam as cenas de violência que vemos ao redor dos estádios. Esse comportamento não seria contraditório perante a sociedade? “De fato as torcidas organizadas promovem eventos culturais e beneficentes. Porém, é importante ressaltar que esses eventos estão sempre colocando seus times em primeiro lugar, tanto que duas escolas de samba advindas de torcidas organizadas que estão no grupo especial do carnaval de São Paulo desfilam em dias diferentes para evitar atritos” conclui a socióloga.

E o torcedor o que pensa sobre isso? A., que não quis ter seu nome identificado, é integrante da Torcida Independente do São Paulo F.C., de Ribeirão Preto(SP) e acha que “a violência, além de manchar o nome da torcida, faz com que a mídia e as pessoas lembrem se apenas desse lado ruim das torcidas e que se esqueçam destes atos beneficentes promovidos pelas torcidas”.

O que também chama a atenção desses atos de violência é o fato do torcedor comum ter se afastado das arquibancadas, justamente por causa desses atos de violência. Há quinze anos pelo menos, os estádios tinham média de público de mais de 50 mil torcedores em clássicos, hoje podemos constatar jogos com apenas 10 mil torcedores. O torcedor comum, dificilmente se envolve em confusão.

Segundo Gracielli “o comportamento de um indivíduo sozinho difere do comportamento deste mesmo indivíduo em grupo. Isto ocorre em qualquer ocasião, não somente em se tratando de torcidas organizadas. Isto se deve ao fato dos indivíduos, quando em grupos, seguirem a conduta violenta que se encontra subentendida no grupo social que é a torcida organizada, ou seja, na consciência coletiva dos membros da organização, e não na consciência do indivíduo sozinho”.

Como nada é unânime existem membros de torcidas que condenam esses atos de violência, como nos contou A.“Sou integrante de torcida organizada e não concordo com esses atos de violência, e gostaria de lembrar que muitos membros de torcidas também pensam assim. A mídia deveria cobrir as coisas boas que as torcidas realizam como diversão, lazer, amizade, paixão pela torcida e pelo clube”.

Muito se fala que um dos principais fatores para coibir a violência nos estádios é trazer os clássicos para o interior do estado, pois na capital a violência é maior.“Realmente na capital ocorre mais conflitos, pode ser que irá diminuir, mas acho que essa não é a solução, pois a polícia do interior é menos preparada para esses clássicos. Acho que os times devem jogar em seus estádios, independente de ser um clássico ou não”, diz A.

Clássicos em Araraquara

Araraquara pode ser sede de um desses clássicos, principalmente após a reforma da antiga Fonte Luminosa. Mas o estádio e a cidade estariam preparados para receber esses clássicos? Se depender da população sim. Segundo Adriano Luiz Rodriguez e Pedro Luiz Silva, ambos encanadores e munícipes de Araraquara a cidade tem condições de receber os clássicos. “Ainda mais com a nova Arena da Fonte, que agora tem boa estrutura” comemora Silva. E a segurança do estádio? “Pelo que vi no jogo do Corinthians [contra o Oeste de Itápolis realizado na Arena da Fonte no dia 24 de janeiro de 2010], tem sim, a segurança foi muito boa” disse Rodriguez.

Segundo Eduarda Escila Ferreira Lopes, diretora-presidenta da empresa que administra a nova Arena da Fonte, o estádio está pronto para receber os clássicos paulistas.“A Arena da Fonte é um estádio que está todo equipado e preparado para receber jogos de pequeno, médio e grande porte, assim como os grandes clássicos, a exemplo da Vila Belmiro [estádio do Santos Futebol Clube] que tem a mesma capacidade do nosso estádio e recebe grandes clássicos”.

Diversos torcedores comuns e integrantes de torcidas organizadas se deslocam de cidades da região rumo ao local onde serão realizados os jogos. Mas, na maioria do estádios da capital paulista, há um lugar reservado para as torcidas organizadas.Teria a Arena da Fonte algum lugar específico para estes torcedores? “A segurança do estádio fica sob responsabilidade da Tropa de Choque da Polícia Militar da cidade. A Polícia Militar que destina os locais para a torcida organizada”, completa Eduarda.

Alguns jogos já foram realizados na Arena da Fonte, mas podemos chamar de jogos de uma torcida só. Ambos tiveram mando do Oeste de Itápolis contra Corinthians e São Paulo, respectivamente. Não foi relatado nenhum ato de agressão, porém, os clássicos costumam ser mais tensos. Mas, segundo Eduarda, os procedimentos de segurança do estádio são muito bem passados pela Polícia Militar.“Em todo procedimento de segurança existem normas da Polícia Militar, eles nos orientam. É uma parceria, aliás o trabalho de administração de estádio é um trabalho de equipe muito maior, pois envolve a Polícia Militar, Defesa Civil, Guarda Municipal, Trânsito e Setor de Obras da cidade”, conclui a Eduarda.

A violência nos estádios existe e é um grande prejuízo para a sociedade em geral. Mas, podemos constatar que tem muitas pessoas se mobilizando e atuando de forma concreta para coibi-la e trazer de volta os torcedores verdadeiros aos estádios brasileiros.

Portanto, basta conscientizar a população de uma forma geral e jamais esquecer que a violência não existe somente no futebol e, sim, em vários outros lugares e, principalmente, dentro de casa, onde tudo tem início.



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