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Cinema atual dialoga com produções cinematográficas de outrora na região

Por: RENATO DIEGO ALVES DE JESUS

02/11/2009

O cinema de outrora encontra-se bastante ligado em sua essência às produções independentes que surgem agora e o contraste das formas de produção é notável. Em comum nas duas épocas, a dedicação e a vontade de elevar a sétima arte a outros patamares e a obtenção do reconhecimento público. Essa arte tão cultuada possui uma história antiga e passagens interessantes que incluem Araraquara e região.

A grande capacidade dos produtores de improvisarem perante as dificuldades é outro ponto em comum nessas fases. “Nas décadas passadas, os filmes eram feitos de maneira improvisada”, afirma Paulo Delfini. “Aqueles de maior projeção e mais premiados no país foram feitos desse jeito. As vezes temos que diminuir as equipes de produção, por exemplo, para nos adaptar às circunstâncias”, diz.

O primeiro filme rodado em Araraquara é, nos dias de hoje, conhecido nacionalmente, e passou a ser revisitado com mais frequência nos últimos anos, desde que foi restaurado em 2003. “Santo Antônio e a Vaca”, de Wallace Leal, é um exemplo de produto oriundo dos anos em que o cinema buscava estabelecer-se de maneira mais sólida. Filmado em 1958, foi realizado de forma artesanal e improvisada, mas com dedicação e cuidados artísticos maiores do que a forma com que foi conduzido.

“Fizemos um cinema belo de verdade”, diz Américo Borges, criador da trilha sonora do filme, por telefone. Convidado pelo próprio Wallace para a função, fez sua estréia no mundo cinematográfico nessa ocasião e, em seguida, prosseguiu na função de arranjador musical em outras produções. Nutria uma grande paixão pelo cinema desde pequeno – em especial pela trilha sonora de filmes. Sofreu com confrontos, que eram corriqueiros. “Pessoas que trabalhavam com cinema, em diversas áreas, eram mal vistas pela sociedade”, explica Borges. Isso, porém, nunca fez com que desistisse. Hoje, 51 anos depois, continua envolvido com projetos na área e com a manutenção de um laticínio na região.

A equipe de “Santo Antônio e a Vaca” pode servir como exemplo ideal de profissionais criadores daquela época que também aprenderam a lidar com divergências. O roteiro do filme, escrito por Wallace Leal, foi inspirado num “causo” famoso já existente e enaltece o folclore nacional. Cheios de idealismo, o grupo confrontou desde problemas de mobilidade até a falta de apoio da prefeitura da época para poder contar essa história.

“Os equipamentos eram carregados da Casa da Cultura até a Fazenda Salto Grande a pé”, afirma Américo. Além do transporte dos materiais necessários para as filmagens, havia ainda a locomoção do elenco e da equipe de produção, que incluia profissionais do exterior, como a camera man e o iluminador, vindos da Polônia. A falta de recursos era contornada com a colaboração e o empenho de todos. O elenco era composto pelos membros do TECA – Teatro Experimental de Comédias de Araraquara, ou mesmo por anônimos que aceitavam participar do projeto.

O fomento na época era ainda mais raso. Em entrevistas antigas, Wallace Leal disse que o apoio recebido dos governadores e autoridades da época para a produção dos filmes foi nulo, assim como a atenção da população. A apatia era grande, assim como as chances do projeto dar errado. Naquela época, leis de incentivo nem eram comuns aos produtores e suas bases eram instáveis.

Para felicidade de todos, o filme teve uma estréia muito bem sucedida, em 1961, no antigo Cine Veneza em Araraquara e foi aplaudido de pé pela audiência. Gesto raro numa época em que todos eram ainda mais exigentes do que são agora. Os gastos com a produção foram cobertos e com os anos ele assumiu um status de filme cult e é lembrado como a obra cinematográfica de maior importância já produzida na cidade. Wallace Leal Corrêa, morto em 1987, deixou contribuições em diversos setores da arte, incluindo essa pérola que enaltece a típica cultura brasileira.

O êxito de “Santo Antônio e a Vaca”, porém, pareceu não animar outros criadores a produzirem mais em Araraquara. A cidade até hoje abrigou pouquíssimos longas-metragens completos contando com ele. Outro dos representantes é “Férias no Arraial”, dirigido pelo polonês Edward Freund, em 1966. O diretor já havia colaborado no filme de Wallace e aventurava-se em outra produção local. Depois dele, o sucessor foi “A vida quis assim” (1967), também dirigido por Freund tendo como locação a morada do sol. Em ambos, Américo Borges também foi encarregado dos cuidados com a trilha original.

Esses trabalhos tinham uma forte influência do cinema novo. A produção araraquarense coincidiu com o surgimento de um período em que havia a busca pela ruptura do estilo clássico, e, somado ao improviso, surgia também a vontade frequente de experimentar. Esse movimento teve como um dos principais representantes o cineasta Glauber Rocha, responsável pelo conhecido “Deus e o diabo na terra do sol”, filmado em 1964 e produzido no Rio de Janeiro. “Simplesmente uma obra prima”, comenta Rubens Miranda. “O resultado que conseguiram obter apenas com uma câmera de mão é fantástico”, diz. Conta também que sente-se “aliviado” pela recente restauração do filme, que agora pode ser encontrada em DVD, merecidamente.

Infelizmente, muitos dos filmes do cinema antigo brasileiro se encontram arquivados e sem contato com o público e a luz do sol – isso inclui aqueles que foram feitos aqui. Vinte minutos de “Férias no Arraial”, por exemplo, foram perdidos por deterioração. “O negativo cinematográfico é muito frágil e pode sofrer danos irreversíveis com a ação do tempo”, diz Paulo Delfini. Juntamente com Américo Borges e em parceria com o SESC da cidade, o diretor tenta resgatar as cópias de alguns deles em contato com a Cinemateca Brasileira – instituição que preserva o material audiovisual produzido no país.

O processo de restauração de um filme antigo pode demorar ou não, alternando entre processos sofisticados ou mais simples, mas a demanda de filmes resgatados poderia ser muito maior se houvesse uma procura maior do público em relação a eles. “Alguns filmes são artísticos demais e não há interesse em lançar edições em DVD, por exemplo”, afirma Paulo, contando sobre as produções menos “acessíveis” para a maioria.

Os novos produtores independentes, além de movimentarem a cena cinematográfica da região resgatam o espírito das antigas produções e fazem com que ele não se extinga, não apenas com atitudes como essa. Todos os entrevistados visam, em seus projetos futuros, acrescentar alguma coisa para as recentes produções.

Paulo Delfini tem planos de realizar, em breve, um documentário sobre a história do cinema de Araraquara, entre outros projetos, como o longa “Pedra Podre”, que retrata o cotidiano de usuários de crack.

Rubens Miranda, além de experimentos relacionados à área, tem a ambição de abrir um espaço onde a arte, de diversas vertentes e fases, seja transmitida para toda a população. Américo é um incentivador da sétima arte, além de ativamente envolvido na sua propagação e conservação.

O empenho desses profissionais remete a uma frase proferida por Glauber Rocha que, em essência, diz que não é preciso muito para fazer com que o cinema ganhe vida e forma em suas mãos: “Uma câmera na mão, e uma idéia na cabeça”. Enfrentando as dificuldades das épocas em que vivem e produzem, esses profissionais se ajustam a cenários variados apenas por um ponto em comum: perseguir a paixão pelo cinema e aderir, cada um a sua maneira, acrescentando um complemento nessa forma de manifestar-se que nunca irá enfraquecer.

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