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Pio Lourenço rompeu o estereótipo do caipira inculto

Por: RENATO DIEGO ALVES DE JESUS

22/06/2009

Pio Lourenço, o intelectual autodidata que o SESC homenageia com uma exposição que se encerra no dia 30 de junho, nasceu em 12 de maio de 1875, fruto do segundo matrimônio do comendador Joaquim Lourenço Corrêa com sua esposa Rita Maria Pinto de Arruda. Foi o único filho oriundo desse casamento, mas Joaquim já possuia onze filhos do relacionamento anterior. Pio ficou órfão aos doze anos e um desses irmãos, Antônio Lourenço de Corrêa, tornou-se seu tutor.

Seus estudos foram interrompidos na juventude e seu maior sonho, formar-se em Direito, jamais se concretizou. Por outro lado, Pio realizou inúmeras atividades até a vida adulta, não só em Araraquara, mas também em Santos e São Paulo, entre outros locais. Tinha grande interesse pelo saber e era autodidata. Aprendeu sozinho quatro idiomas – inglês, francês, espanhol e italiano – e dominava nossa língua com maestria. Realizou pesquisas em diversos campos e considerava-se um linguista. Apaixonado pela natureza, foi apicultor, comerciante, banqueiro, sócio de uma casa comissária e fazendeiro.

Casou-se com a sobrinha Zulmira de Moraes Rocha, em 1888 e nunca teve filhos. Faleceu em 12 de junho de 1957, aos 82 anos. Pio quebrava o estereótipo do “interiorano padrão”, muito forte na época. Foi aquele que lutou contra a ideia de que somente cidadãos que residiam na capital detinham conhecimentos típicos da intelectualidade. Mesmo tendo viajado para diversos locais, sua essência sempre esteve em Araraquara, onde passou a maior parte de sua vida, estudando e vivendo com a mulher na Chácara Sapucaia – um dos atuais patrimônios do município – comprada por ele e refúgio do casal até o fim de seus dias.

O personagem também teve relações próximas a figuras importantes e influentes de diversos setores, como literatura e ciência. Na inauguração da esposição no SESC, o professor Antônio Cândido de Mello e Souza, amigo íntimo de Pio durante a vida, realizou uma palestra sobre o legado deixado por esse cidadão singular. Os laços de maior destaque dizem respeito a amizade que tinha com Mário de Andrade, seu primo, com quem trocou correspondência por 28 anos. Pio foi um grande mestre para o escritor, mesmo com as evidentes divergências de pensamento. Mário era inovador e experimentador da literatura, enquanto Pio possuia uma visão mais conservadora de como os conceitos da época deviam ser produzidos. “Macunaíma”, romance de Andrade, foi escrito na Chácara Sapucaia durante visitas que fazia ao primo Pio. Ele considerava a morada de seu amigo como sendo o único lugar onde tinha real sossego e tranquilidade.

Esses laços deram origem a um livro, também lançado na estréia e intitulado “Pio & Mário – Diálogo da Vida Inteira”, compilado pelo SESC. A obra traz em seu conteúdo quase toda a correspondência trocada por ambos entre 1917 e 1945. A riqueza de detalhes oferecida pelo contato com algo tão pessoal de Pio faz com que o público sinta como se conhecesse intimamente esse homem, tido como sistemático e austero, mas com um lado bem humorado e expansivo, parcialmente escondido pela idade avançada, que tornou-o recluso. “Infinito Interior” refere-se, mais do que à região de Araraquara, ao âmago desse cidadão erudito e que saiu de seu limite de mundo.

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