Ageuniara

Polícia de Araraquara investiga ação de estelionatários

Por: ALVARO TANIGUTI

26/08/2005

“Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?”, é a frase do meia Gérson, da seleção brasileira de 70, em uma propaganda de cigarro que ficou conhecida como a “Lei de Gérson” e refere-se, no imaginário popular, à falta de ética.

O estelionato prevê como crime “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”. A pena é de um a cinco anos de reclusão, além de multa.

A região central da cidade de Araraquara (SP) é a que apresenta maior incidência deste tipo de ação. A afirmação é do delegado do 2º distrito policial, Marco Aurélio Gomes Barbosa, responsável pela área: “Por se tratar de um espaço que concentra uma grande quantidade de pessoas em circulação, também possui quase toda a rede bancária instalada nas redondezas. De cinco a seis casos são registrados por mês, principalmente no período de pagamento”.

Ele explica que os golpes mais comuns são o do bilhete premiado, em que o estelionatário convence a vítima a adquirir um bilhete de loteria supostamente contemplado, ou do objeto perdido, no qual os golpistas derrubam propositalmente ao chão um documento, uma folha de cheque ou um maço de jornal enrolado por uma nota de dinheiro verdadeira -- dando a entender que trata-se de um pacote de alto valor --, para em seguida aplicarem o golpe, tendo como retribuição pela devolução, uma recompensa. Porém, para que seja resgatada, a pessoa é convencida a deixar a bolsa como garantia até retornar do local indicado pelos golpistas, que não existe. Nesse momento a pessoa se dá conta do golpe e não encontra mais ninguém no local da abordagem.

O que contribui para a ação criminosa, segundo Marco Aurélio, é a vítima se encontrar sozinha e ter uma idade avançada, no caso dos beneficiários da Previdência, o que diminui o potencial de reação negativa. Uma parcela dos idosos ainda acredita que a palavra empenhada possui valor. "Isso não existe mais”, alerta o policial.

O que induz as pessoas abordadas a aceitar a proposta é a ganância e a inocência. Os criminosos nunca agem sozinhos: “Há a participação de duas pessoas no mínimo; aquela que observa a movimentação da vítima em potencial no interior de uma agência bancária e passa as informações aos demais integrantes do bando, e as que aguardam a saída para a abordagem”, conta o delegado.

A recomendação do policial é para que idosos evitem ir sozinhos a agências bancárias para movimentar suas contas. "A conversa dos criminosos é muito envolvente. Eles se disfarçam de todos os jeitos, do mais simples lavrador ao executivo de terno e gravata. Não se deve acreditar em milagres ou ofertas vantajosas e nem contar grandes quantias de dinheiro em público”.

E se a abordagem acontecer? “A pessoa deve procurar afastar-se o quanto antes possível e avisar a Polícia, relatando o maior número possível de características físicas e de vestuário”, diz Marco Aurélio. “Se os golpistas não convencem, tentam levar a vítima a um lugar deserto para a prática do roubo (subtração mediante violência ou grave ameaça)”, relata.

Alguns casos registrados na delegacia chamam a atenção pelo requinte e ousadia com que são aplicados. “Não é comum, mas existem estelionatários bem vestidos que circulam no interior das agências bancárias dizendo-se interessados em ajudar possíveis vítimas para, em seguida, pedir a entrega do cartão com a senha. Nenhum banco age dessa maneira. Existe também o golpista que bate de porta em porta nas residências dizendo que é funcionário do banco realizando um recadastramento”, enfatiza.

A prisão desses criminosos é difícil. Geralmente mudam de cidade a cada golpe aplicado, o que dificulta a identificação. “Eles são muito observadores e conseguem captar nas vítimas em potencial se demonstram tensão ao sacar um valor alto, o que as tornam alvo fácil de um roubo, ou se estão despreocupadas, dispostas a ouvirem uma conversa que as levem a cair no golpe”, diz o delegado.

Outra modalidade de estelionato mobiliza a Delegacia de Investigações Gerais (DIG), a da falsa venda de máquinas agrícolas.

O delegado Jesus Nazaré Romão explica que os bandos publicam anúncios em jornais com a oferta de venda de tratores e implementos a preços atraentes. Porém, quando o interessado na aquisição vem a Araraquara, convencem antecipadamente o dono de uma propriedade rural que são apenas visitantes conhecendo a região. Ao mesmo tempo, enganam o comprador mostrando a suposta máquina estacionada.

Assim, os golpistas fazem crer que o bem está à venda, o que não é verdade. “A vítima se convence que se trata de um negócio sério, deposita o dinheiro e mais tarde descobre a realidade”, afirma Romão.

Recentemente, policiais civis de Patrocínio (MG) estiveram na cidade cumprindo mandados de prisão de dois suspeitos envolvidos no esquema. Um terceiro integrante havia sido detido pelas equipes da DIG um mês antes, quando sacava dinheiro de uma conta usada para os depósitos da quadrilha, o que contribuiu para as investigações.

O delegado ressalta que os valores apurados pelos criminosos são altos, entre R$ 50 a R$ 70 mil a cada golpe aplicado, dependendo da máquina oferecida.

Outro esquema que está sendo investigado é a clonagem de cheques, que vitimou um funcionário público na cidade. Ele teve onze folhas de cheque adulteradas utilizadas. em São Paulo (SP). Os comerciantes lesados ligam para a vítima cobrando explicações e os valores preenchidos. As cópias de uma mesma folha de cheque em branco são utilizadas aos finais de semana, quando não há expediente bancário.

A vítima, cujo nome não foi revelado para não prejudicar as investigações, nunca perdeu talonários ou documentos. “Os estelionatários conseguem cadastros de veículos na Internet, onde é possível obter informações pessoais”, conta o delegado, que acrescenta: “Em poder desses dados e de ‘espelhos’ (RG e CPF) em branco -- furtados ou roubados das repartições públicas --, é possível usar os cheques sem despertar suspeita".

Os valores preenchidos são sempre superiores a R$ 300 e existe um grau de dificuldade elevado quanto à investigação, pois os bancos devolvem estes cheques ao depositário ao se constatar a adulteração.

Semelhante à circulação de cheques clonados, outro problema é a perda ou furto de documentos. “Uma vítima de furto teve uma desagradável surpresa ao realizar compras para seu noivado e descobrir que havia várias contas fantasmas abertas em seu nome, todas com cheques devolvidos. Assim que a pessoa descobre que existe uma anormalidade em suas transações bancárias, deve procurar a polícia imediatamente”, conclui Romão.

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