Ageuniara

Psicólogo fala sobre a "infância interminável"

Por: ALECIA QUINTINO PONTES

27/09/2004

Para algumas pessoas, tornar-se adulto significa apenas assumir responsabilidades e sustentar-se. Para outras, estes compromissos não precisam, necessariamente, eliminar a alegria de ser, pelo menos em uma parte de si, sempre criança. Na medida certa, isso tempera de uma forma muito saudável a experiência adulta.

O publicitário Rafael De Angeli, dono de uma coleção de mais de 700 títulos de filmes infantis, que o diga. Ele não tem vergonha de admitir que gosta tanto dos personagens dessas produções, que nas viagens que faz para o exterior aproveita para comprar protagonistas de pelúcia dos filmes e longas de animação que assiste com prazer desde criança.

No hall dos "adultescentes" também está Humberto de Lima Boschiero, o Betão, um dos proprietários de uma agência de publicidade de Araraquara. Ele tem "fixação" por futebol de botão, que joga desde pequeno.

Já o músico Rodrigo César Vulcano guarda até hoje brinquedos que fizeram parte de sua infância, entre eles o robô Arthur, brinquedo que chegou a ser, na década de 1980, objeto de desejo de muitas crianças. Alguns mascotes, como seu boneco Marvim, o acompanham até nos shows.

Para o psicólogo Carlos Alberto Dalbem Elias, de Araraquara(SP), a brincadeira na fase adulta é extremamente saudável quando ocorre dentro de alguns limites."O lado adolescente, porém, nunca pode se sobrepor ao adulto", alerta.

O publicitário Rafael De Angeli recorre a uma passagem bíblica para justificar seu apego à coleção de cerca de 500 DVDs e mais de 200 fitas VHS de desenhos da Disney, além de diversos bonecos de personagens, como Mickey Mouse, Pumba, Timão, Rei Leão, Pateta, Pato Donald, entre outros. "Jesus diz que tem que ser criança para entrar no Reino do Céu", brinca.

Ele recorda que, quando garoto, locava o filme “A Dama e o Vagabundo” constantemente. A partir daí, percebeu que gostava e passou a comprar os títulos assim que eram lançados. A mania persiste até hoje.

A fixação do publicitário é tanta que ele adquire os títulos nas versões legendadas e dubladas. O filme "A Bela Adormecida" ele tem em três versões. "Tenho muitas VHS que são relíquias para colecionadores. Não existem mais no mercado", afirma.

O futebol de botão de Humberto de Lima Boschiero, o Betão, praticamente cresceram juntos. O jogo, para ele, é como um irmão mais velho. Betão conta que, quando criança, aprendeu a brincar com seu pai. Ele e os amigos tinham o objetivo apenas de fazer gols, e as peças eram bem diferentes.

Hoje o "barato" para ele é ser técnico, jogador e torcedor ao mesmo tempo. "Sem dispensar os gols é claro", comenta.

O jogador ressalta a importância da brincadeira porque estimula a imaginação. Para ele, o futebol de mesa chega a ser folclórico. O estádio é uma réplica em miniatura de um verdadeiro, com alambrado, patrocinadores e faixas de torcida. O rojão, para comemorar os gols, são simulados com palitos de fósforo. Quando querem que ocorra uma explosão, os jogadores utilizam os chamados estalos, comuns nas mãos da criançada em festas juninas.

O estádio é equipado até com ambulância e maca, para o caso de algum botão ou membro de alguma torcida se ferir. A caixa que guarda as peças é chamada de ônibus. "Todos os meus jogadores têm nome. O melhor é o Mauro Pastor (antigo jogador da Ferroviária). Por isso eles têm alma", acredita.

A comemoração da entrada do time em campo é feita com pequenos pedaços de papel, que cobrem os botões de alegria, dando um ar de poesia ao jogo. No final da partida, o ganhador recebe prestígio e, às vezes, troféus, mas o hino é sagrado.

A Ferroviária é o time do coração de Betão, mas ele também tem outros conjuntos de botões, como das seleções brasileira, holandesa e do time do Fluminense. A próxima aquisição será o time do Palmeiras.

Todos os times são confeccionados em acrílico e madrepérola, diferentemente de quando era pequeno, quando as peças eram de plástico. O investimento que Betão fez, sem titubear, nos times de botões ficou em torno de R$ 1 mil até hoje. Cada um custa cerca de R$ 120,00.

O músico Rodrigo César Vulcano, baterista de uma banda de rock araraquarense, aproveitou muito a infância e brincou com bonecos até os 14 anos.

Hoje, com 26, mantém em casa metade dos brinquedos que tinha quando pequeno.

Se dependesse dele, compraria novamente todos os outros que se perderam no tempo, mas devido ao alto custo, às vezes adquire um ou outro boneco.

Em meio a tanta coisa de criança, na sala de sua casa destaca-se o robô Arthur. Para quem não se lembra, o brinquedo foi objeto de desejo de quase toda a população infantil na época de seu lançamento, na década de 1980.

Nas propagandas, Arthur aparecia levando o jornal e o chinelo para o dono -o que o brinquedo de verdade não fazia; apenas andava para frente e para trás, piscando luzes coloridas nas antenas e nos olhos.

O bumbo que integra a bateria de Vulcano guarda um boneco Marvim que o acompanha nos shows. Marvim, aliás, já o acompanhou até a uma apresentação da banda Rush, em São Paulo.

De acordo com o psicólogo com Dalbem , a brincadeira na fase adulta é extremamente saudável quando ocorre dentro de alguns limites. Os entrevistados são exemplos de pessoas que curtem seus hobbies da forma ideal, sem se isolar da realidade ou da vida social.

Dalbem explica que a complexidade do ser humano não permite generalizar patologias, mas, às vezes, até mesmo um simples hobby pode ser uma maneira de aliviar o receio de não obter sucesso no futuro."O diagnóstico só pode ser feito por meio de psicoterapia", afirma.

O profissional ressalta que a falta de interesse por atividades que propiciam prazer, como colecionar algo, por exemplo, pode também significar um problema, desencadeando estresse e ansiedade.



Destaques:

Reportagens recentes:

Todas as reportagens

Reproduzir o conteúdo do site da Uniara é permitido, contanto que seja citada a fonte. Se você tiver problemas para visualizar ou encontrar informações, entre em contato conosco.
Uniara - Universidade de Araraquara / Rua Carlos Gomes, 1338, Centro / Araraquara-SP / CEP 14801-340 / 16 3301.7100 (Geral) / 0800 55 65 88 (Vestibular)
N /ageuniara/