Ageuniara

Psicóloga explica a linguagem do corpo

Por: ALECIA QUINTINO PONTES

09/09/2004

Imagine um bom funcionário que, em determinada semana, esteja rendendo menos do que o habitual na linha de produção que você chefia. Você tem duas alternativas: dar uma boa bronca, imaginando que ele está fazendo “corpo-mole”, ou, ao intuir que sua postura cabisbaixa denuncia problemas pessoais, tentar ouvi-lo e animá-lo.

Não é preciso ser um expert em recursos humanos para saber que, no segundo caso, uma conversa será mais producente para a empresa do que a bronca, que o deixaria mais desestimulado ainda.

Decidir entre um e outro procedimento, porém, requer um bocado de sensibilidade por parte do chefe ou conhecimento da linguagem corporal. Afinal, como reza o título de um best seller da auto-ajuda, “o corpo fala” e entender seu idioma pode facilitar as relações interpessoais em todos os aspectos da vida, tanto profissional, sentimental quanto pessoal.

As estudantes do curso de Nutrição de uma faculdade de Araraquara(SP), Tatiane Henriques Pastianelli e Taís Fernanda Limoni, foram observadas estudando na biblioteca da instituição pela especialista em Psicoterapia do Movimento, Teresa Pacchiega.

De acordo com Teresa a postura inclinada para frente da estudante Taís sugere a idéia de que ela está agindo conforme a situação em que se encontra - concentrada, focada no estudo.

“Em alguns momentos, ela mexe em seus cabelos, buscando uma atenção sensorial para compensar o outro centro de atenção, ela mesma, atitudes que indicam uma atividade ativa, pronta para articular as informações do ambiente”, diz.

Já a companheira de estudo de Taís, Tatiane, encontra-se mais distante do foco, porém, talvez de forma crítica àquilo que está sendo discutido por elas. As pernas esticadas embaixo da mesa sugerem uma mudança no centro de gravidade do corpo, colocando-se no lugar do relaxamento,localizado no abdômen, em volta do umbigo, o que indica um enfoque diferente ao assunto discutido.“Atitude reflexiva, que permite uma percepção pessoal -o que ela sente-, sobre o assunto”, completa Teresa..

Segundo as alunas, a linguagem corporal era, antes de serem abordadas pela reportagem, desconhecida. Taís diz que nunca se interessou pelo assunto, mas confessa que quando o momento pede uma observação, como uma paquera, por exemplo, a linguagem corporal é útil.

Outra análise realizada pela especialista foi feita com um grupo de estudantes que conversava no horário de intervalo das aulas: Ricardo Martin, sua namorada, Janaína Abdala, e os colegas Ricardo Mazzei e Flávia Vitorino.

Teresa observa o casal. Segundo ela, o corpo de Martin, direcionado para a namorada, já denuncia a ligação afetiva, até pelo fato de ele estar com a cabeça direcionada para Flávia enquanto conversam.

No momento em que o celular de Martin toca, a sua postura modifica-se e sua atenção passa a ser externa. Ele fica atento ao telefonema. O elo de ligação entre o casal é mantido por conta da ponta de seus pés, que estão juntos, quase que despercebidamente. Janaína também modifica a sua postura, que passa a ser mais aberta a comunicação com os outros integrantes do grupo e a estímulos externos.

O telefonema parece não agradar Martin, pois, enquanto conversa, os dedos de sua mão esquerda movem-se rapidamente enquanto remexem o cadarço de seu sapato.

Após a análise, Martin concorda com a leitura feita. O telefonema realmente não o agradou, e orgulha-se com o fato de poder “provar”, por meio da observação, a Janaína, o quanto está “ligado” a ela.

A linguagem corporal não facilita apenas a comunicação interpessoal. Na especialidade da psicóloga Teresa Pcchiega, ela é utilizada como ferramenta na busca do auto-conhecimento, na técnica chamada de Psicoterapia do Movimento.

Teresa, que especializou-se em Dance Movement Therapy pela Universidade de Surrey-Roehampton (Reino Unido) e é membro da Associação de Dança Movimento Terapia do Reino Unido (Admt-Uk), explica que a Psicoterapia do Movimento entende o movimento como forma de interação, comunicação e desenvolvimento pessoal.

Além de dar ênfase à inter-relação corpo-mente, diminui os mecanismos de defesa criados pela intelectualização e incentiva a participação da pessoa no processo de investigação e conhecimento pessoal. É diferente das terapias corporais que fazem uso de movimentos específicos no corpo.

“Por meio de experiência com movimentos, evoca-se emoções e, a partir daí, processa-se em nível cognitivo os sentimentos e sensações. É o inverso das psicoterapias verbais, que utilizam o cognitivo para chegar às emoções”, explica a psicóloga.

Ela lembra que, na cultura ocidental, a razão e as palavras são mais valorizadas, tornando mais difícil “interpretar” a veracidade dos movimentos pela subjetividade deles. Ao contrário da cultura oriental, que considera o corpo e a mente uma unidade.

Segundo Tereza, os movimentos podem revelar também aspectos da personalidade e o estado emocional das pessoas. Essa análise é realizada por meio de quatro elementos a serem observados nos movimentos: espaço, tempo, gravidade e fluência.

O espaço está diretamente ligado às partes do corpo que uma pessoa movimenta e ocupa no ambiente durante um diálogo. A gravidade e a fluência, ao ritmo respiratório e à distribuição da massa corporal em relação ao ambiente e contexto. “Costumo observar os programas políticos e é incrível como os gestos contradizem as palavras proferidas pela maioria deles”, comenta.

Teresa reforça que, em um ambiente familiar, os pais podem utilizar esse conhecimento para notar alguma mudança brusca no comportamento dos filhos. A apatia ou falta de motivação e interesse por hobbies e atividades sociais, por exemplo, a falta de compromisso, além da agitação e um temperamento explosivo podem indicar uso de drogas, ou abuso do álcool. Já uma ansiedade ou excessiva preocupação com o peso, que fazem a pessoa deixar de se alimentar saudavelmente por acreditar-se obesa, podem indicar transtornos alimentares.

Crianças que choram sem motivos aparentes, têm pesadelos e acordam durante a noite em função deles, são desinteressadas por sair ou brincar, sentem raiva, medo ou simplesmente não querem mais ir à escola podem estar sendo alvo de bullying (brincadeiras humilhantes por parte dos colegas), abuso sexual ou violência doméstica.



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