RESENHAS

“O campo científico”, de Pierre Bourdieu*

Áurea Modenezi
Trabalho produzido para a disciplina Jornalismo Científico, do 4 o ano do Curso de Jornalismo da Uniara


O texto refere-se ao universo da ciência como um campo social onde formas específicas são revestidas de relações de força e monopólio, lutas e estratégias, interesses e lucros. Pierre Bourdieu explica que no campo científico ocorre uma luta concorrencial em que está em jogo o monopólio da autoridade, definida como capacidade técnica e poder social, não rompendo com a imagem de ‘comunidade científica’ descrita pela hagiografia.

Ele diz que o ‘interesse’ por uma atividade científica tem dupla face porque todas as práticas estão orientadas para a aquisição de autoridade científica e que a tendência dos pesquisadores a se concentrar nos problemas considerados mais importantes se explica pelo fato de que uma contribuição ou uma descoberta traz um lucro simbólico mais importante. Mas a luta pela a autoridade científica leva os produtores a terem como possíveis clientes seus próprios concorrentes.

No jogo da luta científica, os dominantes são aqueles que conseguem impor uma definição da ciência segundo a qual a realização mais perfeita consiste em ter, ser e fazer aquilo que eles têm, são e fazem. A autoridade científica é uma espécie particular de capital a ser acumulado. Aquele que chega a uma descoberta depois de outro despendeu seus esforços em pura perda e isso explica a precipitação de alguns em publicar seus trabalhos antes de serem ultrapassados.

O capital social significa ser reconhecido, ter um nome que o diferencie do homem comum.

Num determinado estado do campo científico, os investimentos dos pesquisadores dependem tanto de sua importância quanto da natureza de seu capital atual e potencial de reconhecimento no campo. Assim, tentar medir a relação estatística estabelecida entre o prestígio de um pesquisador e o prestígio de seus títulos escolares de origem é assumir implicitamente a hipótese de que a produção e o prestígio atual são dependentes e independentes dos títulos de origem.

As teorias da ciência e de suas transformações predispõem-se a preencher funções ideológicas nas lutas dentro do campo científico pois elas universalizam as propriedades ligadas a estados particulares desses campos. Na medida em que aumentam os recursos científicos acumulados, torna-se cada vez mais importante o capital científico incorporado necessário para apropria-los e ter, assim, acesso aos problemas e instrumentos científicos. Segue-se daí que a revolução científica não interessa aos mais desprovidos, mas aos que são os mais ricos cientificamente.

O autor fala que a competição reconhecida neste campo se dá dentro dos limites da conveniência social que faz tanto mais fortemente obstáculos à verdadeira competição científica quanto mais carregado de arbítrio social for o universo em que estivermos situados. Ele diz ainda que a falsa ciência destinada a produzir e a manter a falsa consciência deve ostentar objetividade e neutralidade ética.

* In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. p.122-155

acabei de tirar um catoto do nariz, até perece meu pulmão

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